A participação do pai na educação e cuidados com o filho – um novo modelo de família

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Hoje trago uma postagem que preparei para o Instituto Mãe e que foi publicada em 24 de maio, lá no blog do instituto. Quem não viu, terá a oportunidade de conferir tudo por aqui. Boa leitura!!!

Na semana passada vivi um momento emocionante. Ouvi, pela primeira vez, uma frase completa da minha filha. Aconteceu quando fui buscá-la na escola. Assim que nos encontramos, ela olhou pra mim e falou: “Mamãe, cadê o papai?” É claro que aquilo derreteu meu coração. Primeiro, porque percebi o quanto a pequena estava evoluindo rápido – até então só falava frases incompletas como: carro mamãe (carro da mamãe); papai miindo (papai está dormindo), coisas desse tipo – mas também, porque percebi que o elo de amor entre ela e o pai já era tão forte quanto o que existia entre nós duas.

Isso me fez refletir muito sobre a importância da figura paterna na vida dos nossos pequenos. Tanto, que decidi pesquisar um pouco sobre o assunto e preparar o post que aqui lhes trago.
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O modelo de família e sua relação com o laço afetivo entre pai e filho

Muito se sabe sobre a importância da mãe na vida de um bebê. É ela quem o carrega em seu ventre, até que ele esteja preparado para o mundo exterior; é o som da sua voz que o recém-nascido ouve durante toda a gestação; é a sua imagem que os olhinhos pequenos enxergam depois do nascimento. É a mãe quem, em regra, alimenta o bebê. É ela quem tem o primeiro contato pele a pele com a criança e, na maioria dos casos, é também quem realiza os seus cuidados diários. A mãe é a iniciadora do filho na vida.

Por tudo isso, é fácil compreender porque mãe e filho constroem laços afetivos tão fortes. Aliás, essa interação chega a ser tão intensa que, até o quinto mês de vida, os bebês não conseguem se identificar como seres autônomos, individuais. Até esse marco, o bebê acredita que ele e a mãe são uma só pessoa.

A despeito de toda essa explicação para justificar o forte laço afetivo entre mãe e filho, pouco se fala do vínculo entre pai e filho. Talvez, porque o modelo patriarcal de família, firmado na presença do pai provedor, exclusivamente responsável pelo sustento da casa, não permitia essa reflexão, até então. É certo que, nesse modelo familiar, a mulher assumia a função de cuidar e educar os filhos sozinha, sem a cooperação e ajuda do companheiro. A este cabia apenas o dever de sustentar a família, ao mesmo tempo em que assumia a imagem de autoridade do lar, afastado-se das demonstrações de afeto. O papel de figura protetora, repleta de amor, disposta a cuidar das crianças e suprir suas necessidades emocionais era exclusivo da mãe.

Como consequência de uma série de transformações econômicas e ideológicas, esse panorama começou a mudar. As recessões dos anos 70 e 80, os movimentos feministas e a inserção da mulher no mercado de trabalho fizeram com que ela passasse a dividir com o homem o papel de provedora da família. Ao mesmo tempo, o homem teve que assumir parte das obrigações do lar, assim como dos cuidados com os filhos. Nesse contexto, se estabelece um novo modelo de família, em que se observa uma alteração da posição masculina, que permitiu a flexibilização de papeis e funções. Assim, surge uma nova mentalidade pai-mãe-filho mais democrática.

A presença efetiva da mulher no mercado de trabalho retirou do pai o lugar de provedor único do sustendo familiar, mas, certamente, lhe deu a oportunidade de conquistar um lugar ainda mais importante, o de pai presente e participativo. Para esse novo pai, a atenção, os cuidados e o carinho para com os filhos tornaram-se questões tão ou mais importantes do que o sustento do lar.

A partir desse novo panorama, alguns estudos ressaltam a importância da participação e do envolvimento paterno. Em destaque, a psicologia aponta que a interação e proximidade do pai com o filho tem papel fundamental para que a criança elabore a perda da relação inicial com a mãe, pois a criança precisa do pai para desprender-se da mãe e tornar-se um indivíduo seguro e confiante. Segundo Corneau, autor do livro “Pai ausente filho carente”, o pai é o primeiro outro que a criança encontra fora do ventre de sua mãe, portanto, é o ser que encarna, inicialmente, a não mãe e dá forma a tudo o que não seja ela. Assim, a presença do pai é fator facilitador para a criança passar do mundo da família para o mundo da sociedade. Em razão disso, já se admite que o pai é tão importante quanto a mãe para promover acolhimento, crescimento e desenvolvimento adequados para a criança.

A importância da participação do pai para a mulher

A participação e o envolvimento do pai nos cuidados e deveres com os filhos também é fator positivo para o equilíbrio emocional da mulher, especialmente na condição do puerpério, quando esta se mostra fortemente abalada pelas transformações e condições de estresse experimentadas nessa fase da maternidade.

A experiência tem mostrado que as relações, em que o parceiro se envolve e divide com a mulher as responsabilidades quanto aos filhos, tendem a ser mais duradouras. Nesse caso, se estabelece uma relação de companheirismo e colaboração, em que cada um dos parceiros compreende a importância da sua participação, o que faz com cresça o sentimento de confiança e segurança mútuos.

 Em trabalho de pesquisa desenvolvido por Dessen e Braz para o livro “Rede Social de apoio durante transições familiares decorrentes do nascimento de filhos”, foi constatado que as mulheres consideram o apoio do marido ou companheiro mais importante do que o que recebem das suas próprias mães.

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Devo admitir que, no dia do nascimento da minha filha, preferi o apoio do meu marido ao da minha mãe. Ela já havia se disponibilizado a me acompanhar no hospital durante a primeira noite, mas eu insisti que precisava da presença do meu marido. Naquele momento de tamanha fragilidade, senti que somente ele poderia me dar o suporte e apoio de que necessitava. Assim, na primeira noite com nossa filha, permanecemos unidos num sentimento de companheirismo e cumplicidade, o que me fortaleceu e me fez mais segura.

O papel do pai nos primeiros três meses de vida do filho é indireto, mas relevante para que a mãe se sinta confiante e segura em relação aos cuidados com o bebê. Nessa fase inicial, quando mãe e bebê ainda estão se conhecendo e adaptando-se um ao outro, a presença do pai é de grande valor. Ele pode ajudar participando de suas ansiedades, ouvindo suas queixas, ajudando-a a encarar as dificuldades com mais clareza. Enfim, oferecendo todo o apoio necessário.

Ferring e Lewis, autores da obra “The child as a member of the family sistem”, destacam que o apoio e participação do pai nos cuidados e educação dos filhos incrementam a afetividade e interesse da mãe para com seus filhos. Ou seja, o interesse do seu companheiro em promover cuidados e afeto gera ainda mais interesse e afeto nas mães em relação aos seus filhos. Portanto, o efeito da participação e presença do pai é positivo não só para a criança que recebe os cuidados e atenção do pai, mas, principalmente, para o bem estar emocional da mãe e equilíbrio da relação familiar.

Quando começa a participação do pai e as atividades em que ele pode colaborar.

A participação do pai deve começar ainda na gestação. Ela pode se dá por meio do acompanhamento da mulher às consultas de pré-natal e aos exames médicos. Nessas ocasiões, o pai deve demonstrar interesse fazendo perguntas e esclarecendo dúvidas.

Também seria importante que os homens se interessassem mais pelos preparativos que dizem respeito à chegada do bebê. Os detalhes com a decoração do quarto, escolhas e compra do enxoval ficam, quase sempre, sob a responsabilidade da mãe, o que faz com que ela se sinta ansiosa e sobrecarregada. Sabemos que se tratam de atividades não tão empolgantes para os homens. Em regra, eles se mantém distantes de tudo isso porque acreditam que não poderão contribuir, ou mesmo, que as mulheres não necessitam da sua ajuda nesses quesitos. Mas, é exatamente o contrário. As mulheres valorizam muito a opinião do pai, adoram trocar ideias, compartilhar seus sonhos e projetos. Muitas vezes, o pai só precisa expressar sua opinião sobre a cor de um objeto para que a mulher se sinta menos ansiosa. A participação do homem nos detalhes que envolvem os preparativos para a chegada do bebê representa para a mãe afeto, cuidado, interesse e a primeira demonstração de amor do pai para com o filho.

Atitudes como fazer carinho e conversar com a barriga também são bem recebidas pela mulheres e podem gerar efeitos positivos para a iniciação da relação pai/filho. Estudos revelam que os bebês conseguem distinguir os sons das vozes ainda dentro do útero, o que lhes permite reconhecer a voz da mãe após o nascimento, já que esta é a que eles ouvem com mais frequência. Portanto, o pai também pode imprimir na memória do bebê o timbre da sua voz, desde que dedique um tempinho diário para conversar com o filho ainda no útero.

Segundo Dessen e Braz, o papel do pai é mais amplo do que a realização de atividades como brincar e ficar com a criança. O pai deve entender que é responsável pela criança tanto quanto a mãe. Portanto, sua participação não se resume a mera ajuda, quando tiver disponibilidade. É preciso que o homem assuma uma posição atuante, dedicada e responsável.

Com exceção da amamentação, que é a única atividade exclusiva da mãe, o pai pode contribuir com a realização de muitas outras. A colaboração com os afazeres domésticos, que não estejam diretamente ligados aos cuidados com o bebê, como lavar a louça, levar a roupa suja para a lavanderia, ir ao supermercado, levar o cachorro para passear, são formas de minimizar o estresse e as preocupações da mãe.

Os pais menos habilidosos com os cuidados diretos com o filho, como banho e troca de fraldas, por exemplo, podem assumir as responsabilidades relativas ao acompanhamento do cartão de vacinação e das datas em que deverão ser realizadas consultas regulares ao pediatra e ao dentista. Em regra, eles lidam melhor com essas obrigações, ao contrário das mães que, pela carga excessiva de preocupações diárias, tendem a se mostrar mais esquecidas. Como se percebe, o que realmente importa é a participação e colaboração do pai.

Por outro lado, a família não se deve ater à fixação de regras intransponíveis sobre quem deverá cumprir tal obrigação em relação ao filho. Na verdade, cada um pode assumir a responsabilidade das atividades que lhes sejam mais fáceis, prazerosas e das que tenha maior capacidade de desempenho.

Aqui em casa, eu adoro dar o banho na pequena. É o momento em que eu consigo relaxar, curtir e me divertir muito ao lado dela. Mas, percebo que essa não é a função predileta do meu marido. Por outro lado, reconheço que ele tem um prazer enorme de levá-la a aula de natação, o que já não me atrai tanto. Então seguimos assim. Cada um tentando fazer o que mais gosta, cada um tentando contribuir com o que tem de melhor.  Até agora, tem funcionado.

Como a mulher pode favorecer a proximidade pai/filho? 

Muitas mulheres reclamam que seus companheiros não participam dos cuidados com as crianças. Mas, na verdade, elas mesmas não permitem que os pais tenham espaço nas obrigações com os filhos. Grande parte dessas mulheres não confia na capacidade do pai. Elas temem que ele não seja suficientemente diligente e responsável, ou ainda, que a atividade seja desempenhada de modo diverso do que costumam fazer. Essas mulheres precisam aprender a confiar no potencial dos seus companheiros, precisam dar credibilidade ao seu trabalho e desmitificar a ideia de que só a mulher é capaz de desenvolver bem as atividades de cuidado com os filhos.

Também é fundamental que a mãe desenvolva a paciência para ensinar e a capacidade de falar o que espera do seu companheiro. Em regra, as mulheres reclamam muito, mas não falam abertamente sobre suas necessidades. Preferem assumir uma postura de revolta interna, que muitas vezes é externada apenas com uma “cara feia”. É como se elas desejassem que seus companheiros as compreendam pelos simples olhar. Acontece que, com os homens, as coisas não funcionam dessa forma. É preciso que a mulher estabeleça, com seu companheiro, uma conversa franca, onde possa expor suas necessidades, os problemas e as dificuldades da família. Certamente, essa medida surte um efeito inverso ao das reclamações, pois o homem se sente mais propenso a colaborar, já que passa a compreender as reais necessidades de sua parceira.

Por tudo o que aprendemos até aqui, só há bons motivos para que as famílias adotem o novo modelo de participação conjunta nos cuidados e educação com os filhos.

Por falar nisso, como anda a participação do papai ai na sua casa? Divida sua experiência conosco!

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