Por que as crianças mordem e como lidar com essa fase?

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O post desse domingo consiste numa matéria que escrevi para o Instituto Mãe, publicada em 05/07/2016. Vale a pena conferir, não só pelos pais que já estão com filhos na escola, como também por aqueles que logo, logo estarão experimentando os desafios dessa fase.

Boa leitura!

Nas últimas semanas tenho andando meio angustiada com uma situação que tem ocorrido com minha filha, com bastante frequência. Ela tem sido alvo de mordidas dos outros coleguinhas na escola.

Como eu já havia lido sobre o assunto e sabia que se tratava de uma fase específica das crianças em certa idade, não fiquei tão preocupada, logo nas primeiras vezes. Mas, já que a situação se tornou corriqueira, resolvi pesquisar e procurar a psicóloga da escola para uma conversa mais esclarecedora.

Aqui, divido com vocês um pouco do que aprendi.

Inicialmente, precisamos compreender que toda criança vivencia uma etapa do seu desenvolvimento denominada de fase oral. De acordo com o pai da psicanálise, Sigmund Freud, essa fase se inicia já no útero, quando o bebê apresenta o reflexo de levar os dedinhos à boca, é amplamente estimulada pela amamentação e dura até os 2 anos de idade, em média.

Nessa fase, as crianças iniciam sua experiência com o mundo por meio da boca, inclusive quando sentem a necessidade de exprimir suas emoções, ansiedades e desejos. Na verdade, do nascimento até os dois anos, a criança é egocêntrica, acredita que o mundo funciona e existe por sua causa. Em sua concepção, tudo que deseja deve ser prontamente atendido e, quando isso não ocorre, ela pode se utilizar da mordida para expressar seu inconformismo.

Portanto, se trata de uma fase natural, que demonstra o pleno desenvolvimento da criança e que alcança todas elas, mesmo as que não apresentam o comportamento de morder.

Em que pese se tratar de uma fase normal, o comportamento de morder causa ainda mais problemas quando ocorre no ambiente escolar. Na verdade, esse é o ambiente mais propício para o surgimento da mordida, pois é nele que as crianças passam a ter uma convivência social mais intensa. Consequentemente, as escolas precisam estar preparadas para lidar com essas situações da forma mais adequada possível, seja no que diz respeito ao trato com as crianças envolvidas, como no que se refere à conciliação dos interesses das famílias afetadas, a da criança que mordeu e a da que foi mordida. Esse é o papel da escola.

Por que as mordidas acontecem?

As crianças que estão vivenciando a fase oral ainda não têm o completo domínio da fala. Muitas delas conseguem se expressar por meio de algumas palavras, outras nem assim. Acontece que esse reduzido vocabulário não permite que elas saibam conciliar seus interesses quando há uma divergência, como no caso de uma disputa por brinquedo. A consequência disso é, muitas vezes, a mordida.

É preciso compreender que, em regra, as crianças não mordem para expressar agressividade ou raiva. Elas não têm a noção de violência ainda. A mordida é o reflexo de alguma insatisfação, de algum desejo reprimido, ou de algum incômodo, como o calor, a fome, a dor, entre outros.

A criança também pode morder para demonstrar carinho. Pasmem, mas é isso mesmo! Essa mordida é mais fácil de ser observada nos pais, nos coleguinhas ou no irmãozinho. A criança não tem a noção exata de que seu comportamento pode causar dor e, muitas vezes, está apenas tentando repetir o comportamento dos pais. Afinal, é bastante comum os pais fazerem brincadeiras de morder os pezinhos, as bochechas e mãozinhas do bebê. Quem nunca fez? Nesse momento, a criança aprende que aquilo é uma espécie de carinho. A diferença é que ela não sabe controlar a intensidade da mordida e o que poderia ser um carinho passa a ser uma agressão.

Algumas crianças apresentam o comportamento da mordida quando estão à espera de um irmãozinho. A ansiedade quanto à chegada de uma outra criança e a sensação de que não é mais o centro das atenções daquela família podem fazer com que a criança sinta a necessidade de chamar a atenção dos pais. Como ela não sabe expressar seus sentimentos com palavras, encontra na mordida a maneira de conseguir o que quer.

Como lidar com as crianças envolvidas na mordida?

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A criança que foi mordida deverá ser acolhida e receber os cuidados necessários em relação ao ferimento, mas não se pode cometer excessos. Ou seja, não se deve exagerar, demonstrando uma preocupação excessiva com a mordida. O acolhimento é necessário, mas se deve evitar falar sobre o assunto por muito tempo, dar muita atenção e relevância todas as vezes que a criança se queixar da mordida. Essas medidas são necessárias para que a criança supere mais rapidamente a situação.

A criança mordida também não deverá ser incentivada a retribuir a conduta. Se queremos que ela aprenda que a mordida é errada, não podemos incentivá-la a fazer o mesmo. Muitos pais adotam essa postura porque acreditam que estão apenas ensinando o filho a se defender. Na verdade, a defesa surge naturalmente na criança à medida que ela se desenvolve. E a melhor linha de defesa que devemos passar aos nossos filhos é a conversa, o poder do diálogo, jamais a violência. É óbvio que a criança só dominará bem essa linha quando estiver mais madura. Por ora, o que nos resta é ensiná-la que a mordida deve ser informada à professora/berçarista e que a conduta do amiguinho não pode ser repetida. Assim, também se permite que a criança aprenda o valor do perdão, em vez do revide.

Em relação à criança que mordeu, esta deverá receber uma reprimenda verbal no sentido de lhe explicar que não pode morder o coleguinha, que a mordida machuca e causa dor. Para tanto, a pessoa que for repreender a criança deverá se colocar a sua altura.

Por outro lado, não se admite que a criança seja posta de castigo, ou que receba um sermão prolongado. Nenhuma dessas condutas funciona com crianças entre 1 e 2 anos de idade. Eles ainda não têm capacidade de compreensão para tanto.

Apesar de absurdo, muitos pais adotam atitudes violentas contra as crianças que mordem. Alguns dizem que irão morde-la para que ela saiba o quanto dói, outros preferem gritar com seus filhos. Isso causa uma verdadeira confusão na mente da criança. Ela não consegue compreender porque está sendo repreendida por uma conduta que seus pais também cometem. Atitudes como essas, não inibem as mordidas, mas as estimulam.

O papel do adulto é ensinar a criança a transformar a atitude corporal em uma atitude mediada pela linguagem. Assim, logo após a mordida, o adulto poderá dizer para a criança que mordeu: “se você quer o brinquedo, peça ao coleguinha”; “se o coleguinha fez algo que você não gostou, fale isso a ele ou à professora”. Por meio dessas condutas, a criança poderá compreender que há outras maneiras de conseguir o que deseja.

Uma excelente medida a ser adotada com a criança que mordeu, é leva-la para auxiliar nos cuidados do ferimento do coleguinha mordido. Nesse momento, ela poderá perceber a dor e o sofrimento que causou e assim, compreender que fez algo errado. De toda forma, tal conduta só se mostra efetiva com as crianças que já apresentam certa capacidade de compreensão.

Como evitar que as mordidas aconteçam?

A preocupação em evitar as mordidas deve estar presente tanto no ambiente familiar quanto na escola. Portanto, tanto os pais, quanto os educadores, berçaristas e cuidadores deverão adotar condutas que minimizem a ocorrência de mordidas.

As escolas e berçários podem:

  • Evitar que as crianças entrem em situações de disputas, disponibilizando um maior número de brinquedos;
  • Condicionar seus funcionários para que estejam mais atentos às crianças que costumam morder;
  • Envolver as crianças em atividades com maior frequência, evitando que elas fiquem ociosas;
  • Treinar e capacitar os funcionários para que saibam lidar com a situação da mordida.

Aos pais, resta conversar com seus filhos, explicando-lhes que a atitude de morder não é correta e procurar a coordenação da escola sempre que a ocorrência da mordida se mostrar frequente. A mordida, é natural e aceitável, mas não pode ser encarada como algo que faça parte da rotina escolar.

A mordida pode indicar que a criança tem algum problema?

Apesar de ser pouco provável, em algumas situações em que a criança apresenta o comportamento de morder com bastante frequência, pode-se considerar a existência de algum problema de ordem emocional.

Muitas vezes, o próprio comportamento da família propicia a existência de um ambiente hostil em casa, o que pode se refletir em um comportamento agressivo da criança na escola.

Por outro lado, a criança pode estar vivenciando uma situação de ansiedade e de desejos reprimidos o que a faz se sentir angustiada. Às vezes, a falta de atenção, a pouca convivência com os pais, situações bastante comuns na atualidade, podem influenciar num comportamento agressivo da criança.

Portanto, a escola deverá estar atenta às crianças que fogem à regra, apresentando um comportamento exagerado de agressividade. Nesses casos, a instituição de ensino, poderá, por meio de uma conversa cuidadosa, geralmente intermediada pelo psicólogo, informar os pais sobre o comportamento da criança e lhes fornecer as orientações necessárias para que saibam lidar e superar tal dificuldade.

Em que pese se costume dizer que a mordida doe mais nos pais do que na criança, numa tentativa de demonstrar que os pais podem estar exagerando, é preciso compreender que quando a situação ocorre com frequência, a criança mordida pode sim sofrer, além dos danos físicos, outros de ordem emocional, como por exemplo, o medo de retornar à escola. Portanto, nem sempre a mordida poderá ser encarada com tanta naturalidade e cabe aos profissionais que cuidam das crianças perceber quando esse padrão de normalidade/aceitabilidade foi rompido.

O fato de as mordidas fazerem parte de uma fase do desenvolvimento das crianças não significa que elas devem ser ignoradas ou aceitas pelos pais.

Então, seu filho já vivenciou a fase oral, foi mordido ou já mordeu alguma criança? Como a família e a escola lidaram com a situação?

Divida sua experiência conosco e até o próximo encontro!

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